11/07/2009
10/05/2009
3/29/2009
3/22/2009
Canto Comentado
O Fernando escreveu num outro livro seu o que para mim esclarece de alguma forma a razão da sua escrita (ainda que nas palavras de uma personagem de ficção por si inventada). Passo a citar esse trecho (do livro “Sexo entre mentiras”):
“(…) isto sou eu a pensar (…). Apetece-me desmontar pessoas. (…) Tu sabes que eu só escrevo como se fizesse uma limpeza emocional (…). Tenho este hábito de recuperar o humano para me alimentar dos seus fracassos. Estou onde está o sofrimento, tu sabes, mas as palavras são ainda a minha defesa. Sempre quis saber muito sobre os outros, muito para além do humano, e agora julgo não saber nada sobre mim, nada numa terrível consciência de viver por eles as suas tristezas. Quem me lê não imagina o sofrimento que foi preciso condensar num tempo escrito para que tudo voltasse a ter uma vida que escapasse à ficção de existir no meu pensamento. Peço silêncio para as minhas palavras.” Duas ideias-chave a destacar do que se disse: A vontade de desmontar pessoas (de percebê-las) e a escrita como limpeza emocional.
O Fernando não perde tempo com temas fáceis, com questões de algibeira, com matérias dóceis. O pensamento, a reflexão, a repercussão do olhar, os desequilíbrios interiores, as fragilidades, as debilidades das relações humanas, as fraquezas e as obsessões são assuntos transversais nos seus textos. Talvez por isso a sua escrita seja uma escrita psicológica, marcadamente circunspecta, onde as evidências da vida são reveladas por vezes de forma nocturnal mas com um realismo despido de preconceitos, e tratadas com um ligeiro toque de sarcasmo, fazendo-nos tantas vezes rir de nós próprios, da nossa pequenez. Este livro que aqui nos reúne é mais uma vez testemunho disso mesmo.
“Privado” é um ensaio ficcionado que retrata a vida de um casal desgastado, corrompido pelo passar do tempo, pelo tédio e pelas rotinas de vinte anos de vida em comum. A “familiaridade afectiva” (palavras de FEP) que se criou em torno destas duas pessoas, em substituição da paixão dos primeiros tempos, fez com que o sexo entre quem já se conhece demasiado bem se tivesse tornado um lugar desconfortável, visto terem deixado de existir a sedução e o desejo, dando lugar à monotonia, à insipidez, ao enfadamento. A sexualidade transformou-se num frete, fruto da sucessão dos dias que tornaram a vida fastidiosa, fruto da morte progressiva do erotismo.
Através do narrador que progressivamente nos vai introduzindo na história conjugal de Olga, uma mulher mal amada pelo marido, que se entrega a um sem número de fantasias como forma de inventar uma nova relação e de passar por cima do descontentamento, vamos percebendo o “compromisso de enganos em que se traduz este amor”, viciado e desgastado pelo tempo. O narrador aqui funciona quase como um psicólogo (e este é o traço mais marcado na escrita do Fernando) que, através de uma escrita densa, profunda, de confrontação, vai questionando constantemente as verdades da vida, desta vidinha que todos levamos, do que nos move, do que nos percorre, daquilo que não se diz, do que faz falta dizer, do que se pensa, da forma como se pensa. Assim, nota-se em toda esta obra uma profunda análise dos afectos, das questões colocadas pela consciência da personagem, da perversidade das suas fantasias como forma de contornar a artificialidade e da decadência sexual deste casal que tenta enganar os sentimentos reais a pretexto de um matrimónio estável, como se quer.
Assim sendo, as tentativas por parte de Olga no sentido de recuperar uma sexualidade honesta, sincera e acima de tudo real, parecem-nos por vezes ridículas, mas colocam-nos perante um drama em que tão facilmente nos revemos, da necessidade de afastar o tédio através da quebra da rotina. É nesse sentido que Olga inventa jogos de sedução frustrados entre o casal; que tenta até recorrer à violência simulada como forma de estimular o desejo, encenando uma sexualidade sem regras mas onde as regras já estão mais que pré-definidas, propondo o visionamento de filmes pornográficos mas onde o estímulo se esvoaça logo à partida em resultado da impossibilidade de sentir o mesmo fogo das personagens das películas. Imagina ainda provocações dissimuladas em desejos carnais onde joguinhos risíveis mais não logram do que evidenciar as verdades manifestas do cansaço dos dois.
Talvez por tudo isto o narrador não use nunca a expressão “fazer amor” entre este casal, preferindo termos como a “cópula” ou outros mais lascivos (como “foder”) no sentido de, por um lado, evidenciar o facto do sexo entre este casal se ter tornado numa obrigação conjugal, e de, por outro, apresentar ao leitor a dimensão real do afecto entre os dois, onde o empachamento da relação fez com que o amor se esfumasse, dando lugar a uma mera carência fisiológica. Nesse sentido e de uma forma brilhante, o narrador dá o exemplo de, num daqueles dias, ao marido de Olga lhe apetecer simplesmente (e passo a citar):
“ter sexo, mas uma coisa rápida e directa, sem preliminares. Um acto que não implicasse a procura do prazer através duma poética da sexualidade. Aproximar-se e desfrutar o corpo de Olga, como se não tivesse de analisar exaustivamente a própria poesia do instante. Olga também não estava para complexidades. A abordagem simplificada, instintiva e primária elevava-a a um ponto mais alto na escala do erotismo. Não haveria lirismo encenado nem fingimento a encobrir o aborrecimento e a preguiça.”
Tudo, portanto, na mais pura da sinceridade, entre os dois. Seria apenas (desculpem a expressão) “descarregar” e já está. Até porque, como diz o narrador-Fernando num momento mais à frente, num outro apontamento quase psicanalítico, “o sexo não programado é um bom motivo de experimentação neste tipo de atitude. Evita-se uma sobrecarga psicológica, sem culpa formada sobre quem deu ou recebeu mais prazer. A preparação intensiva num acto sexual pode levar a um enfraquecimento do desempenho. Mas também pode ser uma causa de prematuridade orgástica”. Como se o que na realidade fizesse falta fosse um pouco de imprevisibilidade, de romper com o estabelecido, de uma reinvenção. Observe-se esta constatação de uma profunda exactidão, escrita numa poética sublime, sobre a sexualidade possível entre este casal, no fundo de tantos e tantos casais que se imaginam outros como forma de reinventarem a sua sexualidade: “O amor que eles sentiam um pelo outro era mesmo uma fantasia. Eles não se amavam. Eles favoreciam as suas próprias necessidades sexuais numa troca de corpos para que cada um deles pudesse sonhar à sua maneira. O sonho de ambos era uma galeria de imagens provocantes que os fazia sentir na presença de estranhos”. Recuperando uma afirmação do Fernando presente num outro livro seu e a propósito do que se disse, (novamente do “Sexo entre mentiras”), “o amor é uma guloseima que se derrete no coração. Se soubéssemos tudo sobre a pessoa que amamos, se calhar nunca tínhamos querido amá-la incondicionalmente. O amor dura enquanto ainda houver matéria desconhecida no outro”. Já se percebeu que o tema da sexualidade está muitas vezes presente na escrita do Fernando, e muitas vezes sob a forma da sexualidade no limite da tolerância, a sexualidade corrompida ou por outro lado, a sexualidade necessária.
Em Privado encontra-se uma estrutura semelhante em todos os capítulos, baseada mais ou menos na seguinte fórmula: primeiro o narrador introduz um problema na relação conjugal do casal (que poderia ser um qualquer casal que se ature há muito tempo), para de seguida o abordar, problematizando-o do ponto de vista psicológico, sugerindo por fim uma maneira / uma forma do casal lidar com ele, expondo as contradições, a degradação das atitudes, a dissimulação, a impostura, a incapacidade em contornar a questão enquanto ao mesmo tempo prefere continuar a ignorá-la. Se pensarmos bem, este método é utilizado também pelos psicólogos.
Assim sendo, é fácil qualquer um rever-se nestas problemáticas apresentadas no livro, pela precisão com que o Fernando aqui a apresenta. Interessante é o facto do livro estar dividido em 31 capítulos, tantos quantos os dias de um mês, como se cada capítulo tratasse um problema (ou os problemas de um dia, se quisermos) com que um casal se depara. Mais interessante ainda é o facto de no primeiro, Olga começar por se lamentar porque acha que o marido tem outra mulher, para, no último, essa mesma Olga acabar por recuperar o desejo sexual, revitalizando a relação, acabando se quisermos, de certa forma, preenchida sexualmente (e afectivamente). Podemos imaginar que no capítulo seguinte, que acabaria por ser o primeiro dia de um novo mês, ela voltasse outra vez ao mesmo estado de espírito, incerta no amor, cheia de dúvidas, com falta de se sentir amada.
Por fim, de referir somente que é sublime a forma com que o Fernando nos apresenta esta vidinha em que nos corrompemos e nos enganamos a nós próprios, esta realidade tão universal, apresentada numa linguagem tão acessível e clara, por vezes com uma poética sedutora, por vezes áspera, por vezes irónica, numa atitude quase de sátira com o ridículo das atitudes comportamentais. São textos pequenos mas intensos, carregados de verdade e de precisão. Dizer apenas que a pornografia contida neste livro não decorre do facto do tema andar à volta da sexualidade, decorre sim, da realidade ser ela própria pornográfica, como se diz no próprio livro. Henrique M. B. Fialho recordou no excelente prefácio as palavras do filósofo francês Michel Onfry que escreveu a este propósito: “casar [talvez mais não seja] (…) do que arranjar forma de lidar com a vida na base da ilusão, da mentira e da hipocrisia.” E, como diz o mesmo Henrique, “agora o melhor mesmo, é não pensar muito neste assunto”.
Texto escrito e lido pelo Miguel Godinho, na
Apresentação algarvia de Privado
falsa novela erótica do Fernando Esteves Pinto
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1/09/2009
Louvor e Simplificação do VV
Os ânimos aquecem. Nós, entre cafes con leche y bikinis, agradecemos o esquentamento gratuito. E recomendamos à população civil que se mantenha sintonizada, no calor do casebre, abrigada da vaga de frio que faz lá fora e por toda a Europa.
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1/07/2009
1/01/2009
Odes desbobinadas
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11/24/2008
Canto comentado e fotografado
I. A viagem que a viandante Salomé nos propõe inicia-se na estante, junto do pó macio que acaricia os livros dos grandes, dos maiores, daqueles que, pela força da palavra, da sua palavra, nos tornam ecos do dizer. Mas, porquê na estante? Porque antes de se ser Poeta, é-se leitor; Depois, porque os poetas se lêem uns aos outros obsessiva e compulsivamente,.
O demais pode ser lido aqui. Algumas fotos da apresentação aqui.
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9/17/2008
Bravo, Brasil 4
Vitor Vicente, um jovem poeta lisboeta – assim como Cabral fez um dia – atravessou o Atlântico e aportou em nossas terras, trazendo-nos sua poesia. Poesia de um modernismo atualíssimo e instigante.
Em seu novo livro, que está sendo lançado aqui entre nós pela editora O Clássico; Vitor, tal qual um Ulisses hodierno, realiza sua Odisséia (do eterno retorno ao lar), em uma noitada onde peregrina por vários países (bares) e atraca em portos seguros (balcões), refúgio daqueles que buscam incessantemente as lembranças atávicas de quem quer fugir da solidão apavorante que soe acontecer tão somente aos que têm a poesia entranhada na alma.
Vitor, não apenas bebe, metaforicamente, nos muitos bares por onde andou em seus poemas, como demonstra, através dos mesmos, ter bebido (literalmente) na fonte de poetas outros, tais como: William Blake, Rimbaud, Baudelaire, Burroughs, Lautréamont, etc...
No Brasil, a poética de Vitor Vicente, talvez encontre um paralelo no enfoque com a obra de alguns poetas brasileiros pertencentes a uma corrente surgida nos anos 70, denominada Poesia Marginal. Que era assim chamada porque, num primeiro momento, podia ser lida em diversos lugares: nos muros, nos postes, nas paredes e portas de banheiros públicos. Eram feitas artesanalmente em mimeógrafos e distribuídas ou vendidas; em bares, cinemas, teatros, praias; revistas alternativas; páginas de jornal ou qualquer lugar que permitisse aos poetas expressar a descontração, a subjetividade, o protesto e as suas propostas. Era, sobretudo, uma poesia que se encontrava fora do circuito editorial. Seus principais expoentes eram, entre outros: Ana Cristina César, Cacaso, Chacal, Paulo Leminski, Torquato Neto, Roberto Piva, Wally Salomão, Capinam, Francisco Alvim, Vera Pedrosa, etc. E atualmente: Valdo Motta, Delmo Montenegro, Arnaldo Antunes, Córdoba Jr. e Evandro Mezadri.
Então, Vitor é um poeta maldito ou marginal ou marginalizado? Não, ele é apenas e tão somente, como todos os demais poetas contemporâneos o são. Pois a poesia em si, é hoje: marginal!
Mas voltando a peregrinação do poeta, de bar em bar, dissipando-se entre as brumas etílicas que envolvem seus poemas, devemos, onde o vemos embriagado, vê-lo lúcido.
E devemos ainda nos lembrar que, quando levarem os copos e as garrafas, restará apenas a solidão, nessa verdadeira terra de ninguém – e de todos – que é o balcão de um bar.
Beber ou não beber, eis a questão?
E Vitor, o vate libertinerante, canta ou dança um tango (ou seria fado?) em Portugal, e vem para dançar um samba aqui no Depois Bar em Sorocaba - SP, Brasil.
Seja bem-vindo, Vitor.
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6/21/2008
Algumas linhas sobre "Elo, Entrelinhas & Alucinações"
Um retrato fiel do tipo de convivência social a que chegamos com o nosso modo de vida? Bem-humorada e irônica fantasia sobre um país de faz de conta e seus singulares habitantes? Ode à liberdade, à verdadeira natureza humana, ao "mundo melhor" que poderíamos erigir caso nos apetecesse "sair da inércia a fim de queimar as calorias de nossos traseiros gordos"?. Descubram o que exatamente é o "Elo, Entrelinhas e Alucinações" com a certeza de que indiferença, apatia, automatismo, são reações que os leitores certamente não terão com a sua referida leitura.
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4/16/2008
A Fachada falada
Entre outras deixas, deixo estas:
Antes de acabar de ler "A Fachada da Igreja", o tal livrinho, cáustico, mas muito formativo em termos teológicos e bíblicos, e que me proporcionou o 1º encontro com sua graça, fico desde já a pensar que o Pe Mário poderia ser um excelente confessor ou professor e que poderia dar um contributo valioso no aprofundamento da espiritualidade e vivência de comunidades de base.
O último livro do Pe Mário, intitulado "A Fachada da Igreja", da Editorial Canto Escuro", tem o condão de ser um livrinho de 77 páginas. Para além dos criticismos à fenomenologia religiosa católica, tem notáveis tiradas de Teologia e exegese bíblica. Termina com a tentativa de resposta à inquietante pergunta, que não podemos deixar de nos fazermos:
Morremos e depois?
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2/23/2008
Sobre Tudo
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11/02/2007
Blog Feito Livro
O Jorge Fallorca tresleu, até nem desgostou e ainda citou parte d "O Meu Cinzeiro Azul".
O Filipe Guerra faz questao de pôr tudo no sítio a propósito do novo Canto da Casa.
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9/30/2007
Cantos comentados da casa
Obviamente que gabou os cantos da casa e que tal foi decisivo para ter um espaço no aCanto Escuro. Agora que chegam propostas de originais com um ritmo nunca antes visto, aproveito para recomendar os ilustres e não-ilustres a pactuarem com o Canto com a tinta das vossas corruputas esferográficas. Outra sugestão é tirarem partido da minha breve presença FÍSICA em Portugal na semana que vem. Fica ao vosso gosto, sempre claro que o vosso gosto satisfaça o meu!
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8/09/2007
Vertigem (apresentada por outros)
NO PATAMAR DA MATURIDADE: A SERENA POESIA DE M.PARISSY
As palavras são letras que cristalizam sons e revelam imagens, as palavras transportam significados. Elas serão a carne do poema. Vejamos então as palavras que m.parissy nos traz nesta "Vertigem". Elenquei quatro fieiras. Assim -
a) terra, lã, redil, flores;
b) sabedoria, aninal, deuses, sombra, tempo, fogo, instante, tinta, corcéis;
c) sangue, homem, filhos, ilusão, beijos, amor, crianças, visão, noite, precipício, mãos, carne, leito, chama, palavras, peito, poemas, amantes, trovoada, nudez, vinho, orgia, roseiras, estrada, cara, pés, musgo, sexos, terra, líquenes, olhar, engano, religião, visão, casas, ruas, paredes, coração, riso, primavera;
d) ar, mar, espuma, sal, praia, margens, ondas, anémonas, nuvens, asas, aves, corvos, cisne, orvalho, cigarras, grilos, sementes, cores, remorso, vozes, tinta, choupos, salgueiros, bancos, jardim.
É com esta carne que o corpo (este livro) se faz: um corpo feito de mar (as palavras mar, praia, sal repetem-se) e feito de terra; um corpo feito do humano e do circundante. É uma poesis onde o mar e a terra se enlaçam, onde o animal e a natureza se conjugam. E isto, desde logo, situa o autor - quem ele é e de onde vem.
Observo ainda como determinadas palavras (signos, se se quiser aqui adoptar o termo) se relacionam no mesmo poema. Exemplos:
pag. 24 - paredes-areia; pássaro-nuvens; mãos-coração-riso; crianças-lágrima-sede;
pag. 18 - filhos-sonho; cara-sal; choro-praia;
pag. 19 - ar-olhar; terra-mar-horizontes; erva-pés-musgo;
pag. 54 - água-fogo; vagas-praia; sombras-céu; ópio-ânsias-rosto-silvados.
O exercício pode repetir-se num jogo que vai progressivamente sugerindo os nexos da construção poética do m.parissy deste livro. Trazidas ao papel, as palavras (sons e imagens) vão construindo relações que são a alma desta carne, isto é: a poesia. Sempre diante do mar, em terra, pés tocando o musgo e os líquenes, respirando a aragem, assumindo um mundo, o seu. Eis o poeta m.parissy, na VERTIGEM.
Quem não conheça o quem de m.parissy, por este roteiro logo o identifica como homem preso ao mar na beira-terra. O "lugar das vozes" (palavras dele) é, neste caso, condenação congénita, espécie de "pecado original".
Importa dizer que sendo as palavras, além de imagens, o som que delas eclode, a resultante poética - a que alcança os ouvidos, a que tamborila na pele (dito de outro modo: o sangue e a linfa desta carne) - é um discurso de serenidade: não traz o ribombo do trovão nem a brava veemência do mar encrespado de encontro às rochas. Verso curto, estrofe mingada, poema breve. Feito tudo de suavidades, de sussurros: "urgia o lânguido soro da morte", lê-se na pág. 61; "o abismo marinho floreado", lê-se na pág. 57; "de dentro do pranto das aves", lê-se na pág. 16; "com o afecto nu das vertigens", pág. 26; "névoa que migra de areia em areia", pág. 56. São exemplos.
Assim visto, o discurso poético de m.parissy não é dionisíaco como o título do livro poderia implicar. Não: em contraste com a anunciada vertigem, o discurso é medido, contido, apolíneo, na continuidade da obra sua anterior. Aqui, todavia, as palavras surdem mais enxutas e drenadas, a carne mais seca de adiposidades. No percurso que vem desde "Corpo Indómito" (1989) a este seu décimo título, m.parissy parece agora reclamar a maturidade.
Reparai que vos falo do livro e do autor m.parissy. Não vos falo do homem Mário Galego (será m.parissy o alter ego de Galego ou vice-versa?, questão que vos deixo); e não falo porque, neste momento, é a obra que sobreleva. Demais a Galego me ligam anos de amizade, de aventuras comuns, de conversas e viagens, de cumplicidades e o que, por essas e nessas circunstâncias dissesse, seria suspeito e mesmo susceptível de processo disciplinar ao jeito da democracia policiada que nos vão impondo e do pidismo envergonhado que vai gangrenando o sonho de liberdade que já tivemos e que (queiram ou não os convencidos de donos da quinta) devemos limpar dos nossos dias.
Porém, é mesmo obrigatório que vos fale do Galego. Do Mário Galego-jornalista, terra-natal do m.parissy-poeta. Para vos dizer que não é acaso que a pele do jornalista cubra a carne de um poeta: deontologicamente dizendo com distâncias, o jornalista violenta-se porque se neutraliza perante a realidade; para o outro lado da pele perpassam, por saudável osmose, as sensações que ele não transporta para a notícia. E essas sensações, depuradas e residuais, escapam-se construindo a alteridade. Em consequência, a poesia é-lhe o outro lado da escrita, aquele onde se refugia o "sentir" que a objectividade, por dever de ofício exigida ao escriba das notícias, lhe tornou regra - objectividade que se descreve com sintagmas rasos, descarnados, gerais. O sentir e o pressentir ressaltam para o outro lado da pele (um dos seus livros traz por título "A pele da parede" - elucidativo), o lado de dentro, o do sangue e o da linfa: aí está o poeta. Será válvula de segurança? Talvez
Não é Galego caso único de jornalistas que procuram na poesia o equilíbrio de si mesmos, o que - podendo ser tema a interessar psicólogos e psiquiatras, um desafio que fica - deveria ser assunto a merecer atenção por parte dos estetas.
Para este livro, m.parissy recebeu para capa uma foto de Ana Telhado - jovem artista da imagem, ela constrói a sua arte na dura mas serena luta entre a luz e a sombra, revelando da penumbra o segredo das presenças, dos gestos, dos factos. Porque, sabei todos, a vida resiste e afirma-se contra a ditadura da sombra. Diante do abismo da sombra, a vida sofrerá vertigens. E dela diremos com m.parissy, ao cabo de cada refrega:
"ainda bem que
renasceste no pó da terra
procuraste de novo a janela
a madeira dos postigos
o cheiro a mofo das cortinas"
É breve este livro, 67 páginas. Seria imperdoável que, apresentando-o, eu fosse mais extenso. Deixai apenas que vos diga ainda um dos seus poemas (pag 28)
Nuno Rebocho
Lisboa, 16 Junho 2007
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7/11/2007
As Noites Contadas (por outros)
Podem ler o texto completo aqui.
Podem comprar o livro nas melhores (?) livrarias do Porto. Durante o verao chegará a Lisboa. Até lá derretam-se como bem podem!
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6/06/2007
a Vertigem alastra II
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8/17/2006
Henry Killer de orelhas a arder
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6/18/2006
Orelhas de asno a ferver
Aqui fica um excerto:Os dejectos, as excreções do corpo, os elementos orgânicos, o que escapa à medida e à regra. podemos ver, nesta desmesura, a manifestação da «hybris» moderna. Esta poesia procede pelo rebaixamento, pela afirmação de um «baixo materialismo.»
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6/08/2006
Linha de Apoio ao Cliente ?
Quando alguém me liga, imediatamente declino o telefonema. Mas ligo de volta.
O pior são os telefonemas de número privado...Hoje recebi dois durante o horário de trabalho. E um outro na hora de jantar. Aqui vai:
- Está sim.
- Fizeram muito bem em publicar o Padre Mário de Oliveira.
- Obrigado, obrigado. Já agora: com quem estou...
- É que ele merece ser divulgado.
- ...a falar ?
- Ah Com I..., do Barreiro.
- Obrigado, I...
- Era só pra dizer isto. Boa tarde e obrigado.
- Ah, obrigado.
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