8/09/2007

Vertigem (apresentada por outros)

Para quem, como eu, nao teve oportunidade de estar presente no lançamento de "Vertigem", livro de poesia do m. parissy publicado na Canto Escuro, segue o texto de apresentação da autoria do Nuno Rebocho:


NO PATAMAR DA MATURIDADE: A SERENA POESIA DE M.PARISSY


As palavras são letras que cristalizam sons e revelam imagens, as palavras transportam significados. Elas serão a carne do poema. Vejamos então as palavras que m.parissy nos traz nesta "Vertigem". Elenquei quatro fieiras. Assim -
a) terra, lã, redil, flores;
b) sabedoria, aninal, deuses, sombra, tempo, fogo, instante, tinta, corcéis;
c) sangue, homem, filhos, ilusão, beijos, amor, crianças, visão, noite, precipício, mãos, carne, leito, chama, palavras, peito, poemas, amantes, trovoada, nudez, vinho, orgia, roseiras, estrada, cara, pés, musgo, sexos, terra, líquenes, olhar, engano, religião, visão, casas, ruas, paredes, coração, riso, primavera;
d) ar, mar, espuma, sal, praia, margens, ondas, anémonas, nuvens, asas, aves, corvos, cisne, orvalho, cigarras, grilos, sementes, cores, remorso, vozes, tinta, choupos, salgueiros, bancos, jardim.
É com esta carne que o corpo (este livro) se faz: um corpo feito de mar (as palavras mar, praia, sal repetem-se) e feito de terra; um corpo feito do humano e do circundante. É uma poesis onde o mar e a terra se enlaçam, onde o animal e a natureza se conjugam. E isto, desde logo, situa o autor - quem ele é e de onde vem.
Observo ainda como determinadas palavras (signos, se se quiser aqui adoptar o termo) se relacionam no mesmo poema. Exemplos:
pag. 24 - paredes-areia; pássaro-nuvens; mãos-coração-riso; crianças-lágrima-sede;
pag. 18 - filhos-sonho; cara-sal; choro-praia;
pag. 19 - ar-olhar; terra-mar-horizontes; erva-pés-musgo;
pag. 54 - água-fogo; vagas-praia; sombras-céu; ópio-ânsias-rosto-silvados.
O exercício pode repetir-se num jogo que vai progressivamente sugerindo os nexos da construção poética do m.parissy deste livro. Trazidas ao papel, as palavras (sons e imagens) vão construindo relações que são a alma desta carne, isto é: a poesia. Sempre diante do mar, em terra, pés tocando o musgo e os líquenes, respirando a aragem, assumindo um mundo, o seu. Eis o poeta m.parissy, na VERTIGEM.
Quem não conheça o quem de m.parissy, por este roteiro logo o identifica como homem preso ao mar na beira-terra. O "lugar das vozes" (palavras dele) é, neste caso, condenação congénita, espécie de "pecado original".
Importa dizer que sendo as palavras, além de imagens, o som que delas eclode, a resultante poética - a que alcança os ouvidos, a que tamborila na pele (dito de outro modo: o sangue e a linfa desta carne) - é um discurso de serenidade: não traz o ribombo do trovão nem a brava veemência do mar encrespado de encontro às rochas. Verso curto, estrofe mingada, poema breve. Feito tudo de suavidades, de sussurros: "urgia o lânguido soro da morte", lê-se na pág. 61; "o abismo marinho floreado", lê-se na pág. 57; "de dentro do pranto das aves", lê-se na pág. 16; "com o afecto nu das vertigens", pág. 26; "névoa que migra de areia em areia", pág. 56. São exemplos.
Assim visto, o discurso poético de m.parissy não é dionisíaco como o título do livro poderia implicar. Não: em contraste com a anunciada vertigem, o discurso é medido, contido, apolíneo, na continuidade da obra sua anterior. Aqui, todavia, as palavras surdem mais enxutas e drenadas, a carne mais seca de adiposidades. No percurso que vem desde "Corpo Indómito" (1989) a este seu décimo título, m.parissy parece agora reclamar a maturidade.
Reparai que vos falo do livro e do autor m.parissy. Não vos falo do homem Mário Galego (será m.parissy o alter ego de Galego ou vice-versa?, questão que vos deixo); e não falo porque, neste momento, é a obra que sobreleva. Demais a Galego me ligam anos de amizade, de aventuras comuns, de conversas e viagens, de cumplicidades e o que, por essas e nessas circunstâncias dissesse, seria suspeito e mesmo susceptível de processo disciplinar ao jeito da democracia policiada que nos vão impondo e do pidismo envergonhado que vai gangrenando o sonho de liberdade que já tivemos e que (queiram ou não os convencidos de donos da quinta) devemos limpar dos nossos dias.
Porém, é mesmo obrigatório que vos fale do Galego. Do Mário Galego-jornalista, terra-natal do m.parissy-poeta. Para vos dizer que não é acaso que a pele do jornalista cubra a carne de um poeta: deontologicamente dizendo com distâncias, o jornalista violenta-se porque se neutraliza perante a realidade; para o outro lado da pele perpassam, por saudável osmose, as sensações que ele não transporta para a notícia. E essas sensações, depuradas e residuais, escapam-se construindo a alteridade. Em consequência, a poesia é-lhe o outro lado da escrita, aquele onde se refugia o "sentir" que a objectividade, por dever de ofício exigida ao escriba das notícias, lhe tornou regra - objectividade que se descreve com sintagmas rasos, descarnados, gerais. O sentir e o pressentir ressaltam para o outro lado da pele (um dos seus livros traz por título "A pele da parede" - elucidativo), o lado de dentro, o do sangue e o da linfa: aí está o poeta. Será válvula de segurança? Talvez
Não é Galego caso único de jornalistas que procuram na poesia o equilíbrio de si mesmos, o que - podendo ser tema a interessar psicólogos e psiquiatras, um desafio que fica - deveria ser assunto a merecer atenção por parte dos estetas.
Para este livro, m.parissy recebeu para capa uma foto de Ana Telhado - jovem artista da imagem, ela constrói a sua arte na dura mas serena luta entre a luz e a sombra, revelando da penumbra o segredo das presenças, dos gestos, dos factos. Porque, sabei todos, a vida resiste e afirma-se contra a ditadura da sombra. Diante do abismo da sombra, a vida sofrerá vertigens. E dela diremos com m.parissy, ao cabo de cada refrega:
"ainda bem que
renasceste no pó da terra
procuraste de novo a janela
a madeira dos postigos
o cheiro a mofo das cortinas"
É breve este livro, 67 páginas. Seria imperdoável que, apresentando-o, eu fosse mais extenso. Deixai apenas que vos diga ainda um dos seus poemas (pag 28)


Nuno Rebocho

Lisboa, 16 Junho 2007

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