2/03/2009

Privado feito público III

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Apetecia-lhe ter sexo, mas uma coisa rápida e directa, sem preliminares. Um acto que não implicasse a procura do prazer através duma poética da sexualidade. Aproximar-se e desfrutar o corpo de Olga, como se não tivesse de analisar exaustivamente a própria poesia do instante. Olga também não estava para grandes complexidades. A abordagem simplificada, instintiva e primária elevava-a a um ponto mais alto na escala do erotismo. Não haveria lirismo encenado nem fingimento a encobrir o aborrecimento e a preguiça.
O sexo não programado é um bom motivo de experimentação neste tipo de atitude. Evita-se uma sobrecarga psicológica, sem culpa formada sobre quem deu e ou recebeu mais prazer. A preparação intensiva num acto sexual pode levar a um enfraquecimento do desempenho. Mas também pode ser uma causa de prematuridade orgástica.
Em relacionamentos degradados e pobremente investidos de imaginário, o sexo é a capa do livro que se tem entre as mãos e que nunca se lê até ao fim. A aproximação ao corpo é a busca anestesiante do paraíso mental que prolonga a sexualidade e lhe dá um sentido mais intenso. É a viagem circular do prazer. Sem preliminares não existe a consciência da vertigem. O sexo é a forma urgente do esgotamento. Desenvolve-se a crueldade como subsistência emocional.
Representantes da nova vaga de comportamentos e produtos super rápidos: sexo, pizza e amores desfeitos – eles já estavam preparados para embarcar num cruzeiro sentimental, não necessariamente por essa ordem.

Fernando Esteves Pinto, in Privado

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