5/24/2005

Texto lido pelo Amadeu na Ler Devagar

à memória de Eduardo Guerra Carneiro

Se bem que o inimigo de hoje (quer dizer: o de sempre) esteja camuflado em nuances indizíveis, que o neo-capitalismo reinante instituiu para melhor dividir e melhor reinar, e a nossa condição de povo sofra ameaças cada vez mais subliminares (mas nem por isso menos ameaças e nem por isso com efeitos mais devastadores), o certo é que, apesar de tudo, ainda subsiste radicalidade e perícia em alguns de nós para, mesmo assim, podermos defender o nosso direito à vida e à rebeldia, assegurando que as forças fulcrais da nossa vitalidade permaneçam intocáveis, se o exercício da inteligência e do pensamento forem o diapasão dos fundamentos que assistem a quem está vivo, mexe e se recomenda.

Vítor Vicente, no período que vai de 21 de Setembro de 2003 a 23 de Setembro de 2004, mais ou menos um ano, lançou no espaço virtual da blogesfera, quase diariamente, um conjunto de textos que demonstram, à puridade, que, sejam quais forem os obstáculos que nos atirem para a frente, basta que haja um mínimo de espírito crítico e de sentido de justiça para, afinal, nos podermos defender e observar, sem mais apelo nem agravo do que aquele que nos determina a pulsão e o dinamismo de, mesmo estando cercados por todos os lados e mais algum, ainda respirarmos neste mundo de fundo negrume e paralisante asfixia.
Este conjunto de textos é, agora, editado pela Canto Escuro – uma nova editora que convém saudar – e julgo que, para nosso maior gáudio do que aquele que calhe, eventualmente, ao autor por ver publicado o seu primeiro livro, nos cabe estar aqui com júbilo e contentamento, porque estamos realmente em presença de um conjunto de textos que vale bem a pena as árvores que derrubou (coisa invulgar, nos tempos que correm), uma vez que é, em vários planos, um livro extraordinariamente importante para termos de nós, por ele, livro, a possibilidade de fixar um bom punhado de coordenadas que não só nos situam para a hipótese, sempre plausível, de uma reflexão de categórica abrangência ontológica, como, também, nos abre pistas determinantes para podermos elevar o nosso grau de exigência a tudo quanto nos rodeia e raramente nos suscita tanta e tão valiosa qualidade de interrogação.

Diga-se desde já: a prosa de Vítor Vicente chega-nos proximamente aparentada de uma família de pensadores do século XIX português e que tem, como um dos seus maiores expoentes, Ramalho Ortigão e as suas “Farpas”, (em boa hora recentemente reeditadas), ou o Eça de Queirós de ‘O Crime do Padre Amaro’, ou já no século XX, Almada Negreiros, sobretudo o dos ‘Manifestos’ e desse enormíssimo poema que é a ‘Cena do Ódio’, ou de Jorge de Sena de ‘No Reino da Estupidez’ ou, claro está, Luiz Pacheco, onde sempre os bois foram chamados pelos seus nomes e a capacidade cortante de crítica, análise e discernimento não pode senão ser levada em linha de conta se, porventura, pretendermos constituir-nos como testemunhas actuantes do tempo que nos cabe viver.

Se ousarmos ir um pouco mais longe, então, presumo que aqui caberia citar, como voz longínqua deste parentesco, mas não menos tutelar, a de Sá de Miranda, ou aquela que vai transversal a toda a obra de Gil Vicente (porventura primo direito deste Vicente), de inequívoca corretagem social, que se manifesta como um dos mais sagazes e profundos cultores da ironia, desfragmentando, para todo o sempre, o nosso modo de ser e de estar em português, com textos decisivos de análise satírica, tão eficazmente construídos que se podem, ainda, medida por medida, implicar sem medo de grande engano à instituição nacional contemporânea e são bem o exemplo de que o poder corrosivo da linguagem é poderoso e infalível para contrapor alguma ordem à desordem que nos querem contrapor, não esquecendo, entretanto, claro está, a voz de Manual Maria Barbosa du Bocage, paladino do gozo jocoso de larga respiração, de puro desfrute e puro deleite do que há de bom na vida, ou, até, um pouco anterior, a de Paulino Cabral, o abade de Jazente, tão ingratamente ostracizado pela plêiade académica dominante.

É evidente que, nesta apresentação, não me irei demorar a catalogar as pertinências técnicas com que o autor nos brinda e seria fastidioso reter, ponto por ponto, os inúmeros exemplos em que Vítor Vicente demonstra uma inusitada (quase diria musculada) agilidade para reinventar a língua portuguesa, colocando-a ao serviço do que realmente interessa, que é modular um ponto de vista e uma razão elementar para entregar ao posto de escrita carga de pólvora adequada para a artilharia que usa e a que dá, aqui, neste livro, um relevante contributo, não exactamente no sentido marxista de transformar o mundo, mas, pelo menos, como preconizou Rimbaud, no sentido, mais decisivo a meu ver, de mudar a vida. Mas nem assim cedo à tentação de dar um exemplo (sem exemplo) do prazer esteticamente lúdico que esta escrita me suscita, chamando a atenção para a novidade que este herói, quase épico, utiliza para nomear o ‘em volta’, ora rearmadilhando o real, ora fazendo-o implodir, quanto mais não seja por uma premeditada cumplicidade com o leitor, que tem o mérito de ampliar, neste último, o sentido maior e mais fundo da corroboração, a ponto da identificação ser completa e conclusiva. Assim, às ‘salas de aula’ se chamam ‘jaulas de aula’, formulação que aqui deixo sublinhada como indicadora e significativa da frescura e do poder analítico, sistemático, sintético e transfigurador da prosa de Vítor Vicente, e aqui refiro para fazer notar que é neste teor que as analogias deste autor se constroem, não exactamente como mero instrumento de trabalho retórico, em que se condensa o mundo numa expressão redundante do que nos rodeia, mas, como se lê, para amplificar o seu poder de fogo sobre a realidade, em ordem a uma leitura consequente não só da coisa em si mesma – as salas de aula -, mas do que nela se sabe de agressão, brutalidade, aniquilamento e alienação – as jaulas de aula.

Página a página, dia a dia deste diário, episódio a episódio, de reflexão em reflexão, Vítor Vicente relata os vários confrontos a que a sua aventura da vida o leva e obriga e a que ele, estoicamente, não só não vira as costas, como, intrépido, dá luta desenfreada e sem tréguas, como franco-atirador da nossa resistência. No bairro, no barco, no cinema, nos transportes públicos, nas suas deambulações pelo país, na noite de Lisboa, através do usufruto da benção da música, da leitura, do sexo e da cerveja, encaixe a encaixe, Vítor Vicente sobe alicerces, levanta paredes e rasga janelas para a grande casa do mundo, justificando-se até pelo que em si se contradiz, quiçá com alguma puerilidade, mas pulsando, sempre, de coração e cabeça, em virtude do repto inalienável, porventura inadiável, de fazer o pleno na prerrogativa nietzschiana de um‘humano, demasiado humano’.

Quantos de nós se poderão identificar com a personagem principal deste livro, afinal Vítor Vicente, no seu melhor? Provavelmente muitos, provavelmente poucos. Contudo, todos sabemos de cor e salteado o cenário em que tudo isto se passa, todos sabemos – provamo-las na carne – as vicissitudes a que o nosso país nos obriga, ou, melhor dito, a que ordem mundial reinante nos obriga, através da qual uns poucos determinam o destino individual de 4 biliões de seres humanos, com a agravante de que o que esses poucos determinam, globalmente, são poços danosos, indignos da nossa humanidade: a doença, a fome, a guerra, a miséria e a ignorância. É para isto, na sua essencial simplicidade mordaz, que Vítor Vicente nos chama a atenção, contrapondo as poucas armas que pode e foi conquistando à custa da sua sagacidade instintiva, sabendo essas armas, no entanto, minimamente dinâmicas para que, ainda assim, e apesar de tudo, a sua consciência não rebente pelas costuras de uma insanidade mental prolixamente imobilizadora. Não há como discutir as opções tomadas pelo autor entre esta ou aquela Faculdade quando, em última instância, o ensino que nos ministram subverte os valores da liberdade e contamina as cabeças para o derrame cerebral necessário para que a balança de pagamentos se equilibre ou os lucros aumentem exponencialmente. Não há como discutir as opções pela invariabilidade da calaçaria quando os ademanes societários estão satisfatoriamente oleados para penalizar quem quer que seja que levante o toutiço um pouco acima da linha de água, ou do oxigénio ainda disponível. Não há como deixar de sentir vivamente o sal a arder na ferida quando o desenquadramento dos valores representa o vilipêndio da falta de trabalho, do salário conforme, da (in)certeza de um presente vilmente sitiado por um quotidiano de cilindramento persecutório de futebol e televisão, vivido em condições infra-humanas e um futuro sempre e sempre adiado. O mundo está no que está: um castigo a que alguém divino, porque criado à imagem e semelhança dos deuses, não pode, não quer suportar. Vítor Vicente já viu a cena, já a descodificou, e já fez, também, o trabalho de casa: está neste livro a dar-nos rastilho bastante para que a nossa vontade de lucidez e de mudança se acicate. Vítor Vicente, tendo resolvido não aceitar o establishment toma uma nova direcção, a sua mesma, conduzindo-se pelos que entende como seus e da sua estirpe, de Nietzsche a Raymond Roussel, de Sade a Henry Miller, de Luiz Pacheco a Herberto Hélder, conjuntamente com todos os poetas conhecidos e desconhecidos do universo, seus amigos, seus tão queridos amigos, poetas, profetas, músicos, cantores, filósofos, andarilhos, musas, compinchas de ocasião, a par com a opção por um modus vivendi e operandi a que chamaria ‘divina boémia’, já que neles há copos em ocasião de copos, livros em ocasião de livros, contemplação em ocasião de contemplação, mulheres sempre que possível e o fulgor dos dias e das noites como brilho escuro a seguir sempre, sempre em frente, sempre a abrir. Uma ‘divina boémia’, diga-se, já agora, que se contrapõe a Dante e aos círculos probatórios e condenatórios da sua “Divina Comédia” como suma moralizante do universo dos homens, coisa que em Vítor Vicente é algo de inconcebível: ao longo de todas as páginas deste seu livro: o pacífico sniper nunca dispara por via de trocos moralistas ou seus coadjuvantes, sendo que fica sempre bem claro que o sentido ético do inferno é já, em si mesmo, uma qualificação inexorável. Pacífico sniper, digo eu, e ajusto mais a mira, para que não dê lugar a conclusões precipitadas – eu sei que li bem e não me engano: nestas páginas há muita incisão e, até, alguma crueldade, mas a violência manifesta é sempre expressão referencial das vivências observadas no microscópio da contundência, e jamais apelo para a galvanização violenta da mudança, que nunca se preconiza gratuitamente, mas antes pelo preço pesado que sempre tem tudo o que há-de nascer.

Esta exposição já vai longa e, antes que alguém adormeça, vou terminar. Não sem, contudo, referir o seguinte: a dado passo da página 146 do seu livro, Vítor Vicente transmite-nos a ideia da enorme repulsa que lhe causa a ideia de desaparecer de entre o número dos vivos. Diz ele, e passo a citar. “Eu estou consciente de que sou uma parte da natureza, uma parte tão relevante como um arbusto ou um miosótis, mas entranhar que vou desaparecer – fisicamente – para o resto do sempre suscita-me um terror sem adjectivo que o qualifique.” (fim de citação). Como raio leio eu isto, para concluir? Mais que a repulsa pela morte, eu creio que o que Vítor nos comunica é a repulsa pelo vazio tout court, ou melhor dito, a repulsa do vazio que a morte contém, na sua vastidão de nada absoluto e infinito. Nós sabemos que quem é lúcido como ele demonstra ser tem a percepção de que, como toda a gente, acabará por morrer mais cedo ou mais tarde, mas creio que este seu horror pelo desaparecimento físico tem a ver com a consciência de que, apesar de tudo, há outra nudez na morte que nos pode acautelar do vazio do esquecimento e que tem tudo a ver com o propósito idóneo, convincente e consequente como vivemos a vida que nos coube viver. E, assim sendo, estou certo de que ele sabe que, na hora da partida, só nessa honestidade poderemos repousar, salvaguardando o valor primordial que em nós existe e nos há-de defender para todo o sempre.

Amadeu Baptista

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