1/12/2008

Discurso do Método, Nuno Rebocho

DISCURSO DENTRO DO SILÊNCIO


I

em que silêncio me descoberto por cuja porta falo
e em verdade vos digo a finitude de qualquer sem limite
aí descubro o meu hálito. e por aí me fixo na terrível balbúrdia
deste silêncio onde cada mar encalha
onde cada aventura perde a inocência e o seu pecado. onde
me desloque e de mim fale com a boca de falar dos outros
e de mim diga os outros silêncios que comportam
o mar e o seu contrário - a ansiedade e o seu contrário.
por isso é que o outro é o outro lado
e o outro lado se insatisfaz na mesma satisfação da inocència
e do seu contrário:
eu gostava de dizer estas coisas que me perturbam a pituitária
com as palavras mansas como os outros dizem às suas rapinas
- tens as pernas bonitas e quero cansar em ti a minha noite.
eu adorava esquecer as cores do meu umbigo e tê-lo de verde ou de prata
como se as pernas pesassem para travar os passos
ou a próstata tardasse na sua fatalidade.
eu gostava que o sentimento se esgotasse
numa noite de putas e o álcool apenas fosse o orgasmo
das árvores que nunca encontraram o caminho de sua casa.
dava tudo para que no silêncio só o silêncio corresse
sem o perdão da consciência e que o silêncio nunca me despertasse


para eu meter os outros dentro do sangue do meu silêncio

e aqui ficasse parado a falar de amor e dos asteróides
que decoram o espaço das minhas mortalidades acumuladas.


mas não: é porque chove no silêncio
que o sul descai para o hemisfério das angústias.
e hás-de perguntar por que chove
e hei-de morar no hemisfério leste das dúvidas.


é complicado, meu amigo, sentir trémulas as pernas da ternura
e saltar como um rato para o espelho das certezas
onde elas se retratam pelo seu inverso.

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