1/28/2008

Discurso do Método, Nuno Rebocho II

e eu para aqui a esforçar-me para arrancar das entranhas este vício
de dar nomes a quanto me perturba: nomear tranquiliza.
identifico os fantasmas e eles arredam-se para que outras coisas
entrem pelo meu quarto com a luz da manhã (procuro
arrancá-las da penumbra para colocá-las ao colo da inquietação).
não importam os silêncios porque os ruídos ocupam a casa
e fazem companhia às sombras que se deitam ao lado da minha
dor de fígado: são assim as manhãs nesta casa onde habitualmente
acordo com a boca seca das desilusões destiladas no alambique
das esperas. e eu a esforçar-me para arrancar das entranhas
este vício de esquecer os nomes e de mandar para trás das costas
o que me perturba: esquecer tranquiliza. nesse momento deixam-me
os fantasmas para se confundirem com o ronronar do frigorífico.
lá fora limpam as ruas dos seus lixos e eu adivinho
as folhas que vão caindo das árvores como um discurso do tempo.

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