9/27/2007

O Meu Cinzeiro Azul I

"O Meu Cinzeiro Azul", da autoria do Henrique Manuel Bento Fialho, com desenhos do Cristóvão Crespo, já fumega. Logo que haja fumo azul, eu apelarei à vossa atenção. Até lá vou deixar sair algum fumo para que comecem já a habituar-se ao tóxico que o novo canto da casa gasta.

Eu adorava, por exemplo, que os meus alunos fossem todos leitores ávidos e esclarecidos. Vou-me esforçando por isso. Eu adorava, por exemplo, que os escritores, os críticos, os livreiros, os editores, fossem todos pessoas honestas e impolutas. Não serei eu a esforçar-me para isso. O espírito de feirante está instalado: Deus nosso senhor mandou-nos ser bons, mas não exigiu que fossemos parvos. O panorama literário português é, como tantas outras coisas no nosso país, paupérrimo e confrangedor. Os leitores são poucos, ainda que para aí não faltem escritores. E escritores que são críticos, outros que são editores. Às tantas, dá a sensação que se andam todos a ler uns aos outros. Reparemos, só a título de exemplo, na quantidade de críticos que são, ao mesmo tempo, autores. Em alguns casos, menos, são também editores. Olhando para os suplementos literários na imprensa portuguesa actual, o Estado Geral da Poesia (contemporânea) fica bem visível: Joaquim Manuel Magalhães, Manuel de Freitas, Carlos Luís Bessa, Pedro Sena-Lino, Eduardo Pitta, Pedro Mexia, José Mário Silva, Jorge Gomes Miranda… São todos autores de livros e críticos de livros, sendo que alguns vão mesmo sendo pau-para-toda-a-obra. Por vezes parece que escrever sobre os livros dos outros é um pretexto para atribuir mais credibilidade aos livros que os próprios vão escrevendo (e editando, com maior ou menor frequência). Isto pode criar no leitor uma certa desconfiança, por maior que seja a honestidade de cada um dos visados. A desconfiança será ainda maior, por vezes justificável, quando se torna explícita - a tornar-se - a tendência de cada um dos críticos-poetas para privilegiar os livros das editoras afectas, dar maior visibilidade aos livros dos autores que fazem parte do seu núcleo de relações, escrever sobre livros pretendendo ver neles não o que eles têm para dar mas o que o crítico acharia que o livro deveria ser (em função das suas inclinações como escritor). Perante tal cenário, o que fazer? A quem interessará mudar alguma coisa? Aos leitores, duvido. São poucos e pouco exigentes. Para o leitor, mesmo para o leitor mais atento, duvido que a importância do crítico ultrapasse a de um bom cardápio. Mas para o autor-leitor, a coisa fiará mais fino. Ele quererá ver-se contemplado, pretenderá aparecer, achar-se-á no direito de ter a visibilidade que é dada aos outros, exigirá imparcialidade, seja lá isso o que for, ordenará honestidade, seja lá isso o que for, ele almejará o eco que observa noutros e, por inveja, por ambição, por probidade e honradez, quer para si. O tempo em que a crítica tinha outro poder, um poder fundador, literário, determinador, já lá vai: «Pergunta: Atribui importância à crítica? Resposta: Pessoalmente, não lhe atribuo grande importância, embora ela determine paradoxalmente, e contra a minha vontade, algumas das minhas opções» (Pier Paolo Pasolini). Quantos serão os autores portugueses que hoje em dia responderiam como Pasolini respondeu? Socorro-me então de outros tempos para terminar o que já vai mais longo do que eu desejaria. Num excepcional artigo de Marina Tsvietaieva, datado de 1926 (!) e traduzido para português por Fernando Pinto do Amaral (outro autor-crítico), encontro tudo o que me apraz dizer sobre este tema. Intitula-se o artigo Um Poeta a Propósito da Crítica (Marina Tsvietaieva, O Poeta e o Tempo, Hiena, 1993). Tsvietaieva começa por afirmar, muito taxativamente, que «a primeira obrigação do crítico de poesia é a de não escrever maus versos». Nem mais.

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